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7.07.2009

Sucessão sem dor – Isso é possível?

Por: Eduardo M. Gentil - HSM Management

As dores do crescimento estarão presentes num processo sucessório de empresa familiar, mas elas serão menos intensas, se sucessão não for um tabu. Leia os conselhos do especialista.

Ao longo dos últimos dez anos, pude vivenciar vários casos de sucessão familiar, todos únicos, mas com uma característica em comum: a dor. Mas trata-se daquela dor que podemos considerar positiva. É a famosa dor do crescimento, aquela que nos acomete quando aprendemos algo pelo método de tentativa e erro, talvez o mais eficaz. Durante um processo sucessório, todos aprendem, cada um no seu papel.

A sugestão que dou a todos é deixar de lado a preguiça ou o medo de sentir ou causar um pouco de dor, arregaçar as mangas e tratar do assunto de maneira sincera, objetiva e, obviamente, planejada, pois, sem esses poucos, mas importantes, ingredientes, a dor com certeza será grande e, talvez, inútil.
Entendo que cabe aos pais, sem mais ou menos carga a um deles, iniciar os preparativos para uma sucessão. Afinal, ninguém é eterno. Os piores casos que vivenciei ou tive notícia foram aqueles em que o assunto “sucessão” sempre foi tratado como tabu familiar. São casos nos quais os patriarcas não mencionavam ou até mesmo escondiam o seu dia a dia da família, bem como os assuntos da própria empresa familiar (problemas, receitas, dívidas e tudo o mais que se possa imaginar), e, um belo dia, este patriarca se vai. Aí começam as dores mais fortes: a dor de quem perde um ente querido e a dor de quem ficou e tem de tentar entender como era a vida deste ente, a “herança” (um bom patrimônio e créditos ou débitos e obrigações não cumpridas?). A poeira de debaixo do tapete surge como um raio.
Se o tabu não é a melhor saída, o jeito é falar sobre o assunto. A conversa familiar é um ingrediente fundamental à sucessão bem-sucedida, não importando se ela resultará em um testamento ou em uma estrutura mais sofisticada, como a formação de uma holding, por exemplo.

A conversa familiar é o método mais antigo e simples para iniciar e conduzir um processo sucessório. Com frequência, porém, é o menos utilizado. Converse com todos da família, começando por seu cônjuge. Exponha as coisas boas, as ruins, suas preocupações, seus sonhos, e, com isso, acabará conhecendo melhor a pessoa que está ao seu lado, em seus aspectos positivos e, infelizmente em alguns casos, nos mais indigestos. Faz parte da natureza humana. Até hoje, só vivenciei os bons casos, mas já soube de inúmeros ruins. Penso que sou sortudo. Ou talvez tenha um olhar voltado para as boas coisas em detrimento das más.

Depois do cônjuge, normalmente chega a vez dos filhos, e, uma vez mais, vêm as boas e más surpresas, sempre necessárias. O melhor de tudo é que as boas podem ser muito bem aproveitadas. Quanto às más, sempre é tempo de tentar melhorá-las, como tentar fazer com que haja uma preparação melhor daquele filho por meio de mais conversas, treinamentos, cursos, viagens e muitas outras soluções e providências.

..:: Agregados sim, desagregadores, não! ::..

E temos os genros e noras, os quais nem sempre devem fazer parte de uma estrutura voltada para a sucessão, mas, preferencialmente, devem participar do processo. Eles devem perceber que são bem-vindos e que devem contribuir com tudo o que for possível. É um prazer ver agregados na família, da mesma forma que é triste ver os “desagregados”, ou pior, os desagregadores!

Netos e netas: importantíssimo tratar deles, mas tudo ao seu tempo, e não tratarei disto neste breve artigo, mas apenas lembro aos patriarcas e matriarcas que não se esqueçam de seus filhos ao privilegiarem seus netos. O perigo é criar-se uma “geração sanduíche”, ou seja, aquela na qual os patriarcas ficam por tanto tempo na gestão dos negócios que, quando chega a hora de passar o bastão, voluntária ou involuntariamente, os filhos já estão velhos ou desmotivados demais para assumir os negócios.

A conversa familiar fortalecerá ainda mais as relações familiares e intergeracionais e fará com que todos possam vislumbrar um objetivo comum, seus papéis e aspirações dentro desse objetivo, e que consigam se entender, se respeitar e, principalmente, crescer. A dor, na justa medida, pode ser fortalecedora.

* O autor é advogado e sócio da TRUST Gestão Patrimonial.
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