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6.17.2009

Lições da crise

Por: Adriana Cotias, de São Paulo – Jornal Valor Econômico

"A crise atual é globalizada, não pertence só aos Estados Unidos e, por isso, é preciso fazer uma análise crítica, avaliar como ela afeta o Brasil e entender qual é a nossa parte, se prevenir, adaptar o orçamento". Tal encadeamento de ideias, que poderia ser confundido com a orientação de um consultor financeiro, foi, na verdade, feito pela perita industrial da área de segurança patrimonial da ArcelorMittal Tubarão, Magali Gonçalves Coelho, de 44 anos. Apesar da formação em administração de empresas, com ênfase em Recursos Humanos, sem grandes afinidades com o mundo das finanças, a funcionária mostra muita ciência das possíveis repercussões do colapso originado nas hipotecas americanas na sua realidade.

Autocontrole no shopping, economias na conta de luz e corte de gastos supérfluos estiveram entre as iniciativas adicionais ao controle das finanças da família com o avançar da crise. O ato de poupar já era uma prática: todo mês ela investe num "fundo automático" e, quando a soma fica mais gordinha, coloca tudo nas duas cadernetas de poupança que mantém, uma para si e outra para o filho, de oito anos. O acesso a informações muito específicas foi o que ajudou Magali a reforçar a disciplina em casa. "Tentei frear o impulso de consumo, já fui três vezes ao shopping e não gastei nada e passei a pagar mais as compras no cartão, assim evito o descontrole dos cheques pré-datados."

Magali foi uma entre os quase 2,5 mil funcionários da siderúrgica que passaram recentemente pelo ciclo "Crise Global e Vida Pessoal", dentro do Programa de Gestão Orçamentária (PGO) da empresa, que engloba, há 14 anos, temas como orçamento, investimentos e até a consulta de um "personal economist" para auxiliar funcionários endividados a virar o jogo. Com o novo módulo, a intenção, conta a assistente social Sandra Sabadini, foi explicar o bê-á-bá da crise sem, contudo, semear o pânico do desemprego. "Detectamos que os funcionários, as famílias, estavam muito alheios à crise, como se ela não ocorresse aqui no Brasil, só nos Estados Unidos e Europa, não havia noção do seu efeito cascata", afirma. "A ideia geral era que se você está empregado, não existe crise."

Tal percepção replica o modo de pensar do brasileiro. A última pesquisa CNT/Sensus, divulgada no início do mês, evidenciou o otimismo da população em relação à crise econômica internacional. Mais da metade dos entrevistados (52%) afirmou não temer perder o emprego e proporção só um pouco menor (50,4%) disse acreditar que o Brasil está lidando adequadamente com as consequências do imbróglio global.
"O brasileiro tem muita confiança no futuro e alimentou a postura oferecida pelo governo de que o país estava longe da crise, que ela seria passageira, e na passagem do Natal, Ano Novo e férias gastou como se não vivesse um momento global complicado", observa o economista Antônio Marcus Machado, a quem coube a tarefa de explicar didaticamente a crise aos grupos heterogêneos da ArcelorMittal. "O nosso argumento é não desconsiderar a crise, entender as suas razões, a origem e de que forma ela impacta o emprego e o endividamento das famílias."
Ao trazer o tema para a realidade brasileira, o especialista explicou, por exemplo, como a recessão nos países da Europa e da Ásia atinge os principais compradores de insumos siderúrgicos brasileiros. "Daí eles entendem por que se reduziu a produção em determinado alto-forno ou por que houve a diminuição do emprego no segmento de mineração."

No que toca o orçamento doméstico, o especialista preconiza que em momentos assim é melhor ser previdente. Se em situações de economia em crescimento o recomendável é guardar entre 15% e 20% do que se ganha, na crise a fatia destinada à poupança deve subir de 20% a 30%. O plano de comprar uma casa própria deve ser adiado e se as dívidas não cabem no bolso, talvez seja melhor vender o imóvel e morar de aluguel. Nas palestras, Machado incentiva que as pequenas economias em casa sejam trazidas para a rotina de trabalho, com o registro de soluções encontradas em cada área. São pequenas contribuições que podem se traduzir em aumento de produtividade.

Estimular a austeridade das finanças pessoais tem sido o principal mote dos programas de educação financeira desenvolvidos pelo Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes) desde 2004. Apesar de a instituição ter o crédito como uma das suas principais frentes de negócio, na hora de se comunicar com os empregados o discurso vai na linha de se evitar o endividamento descontrolado, conta Valeska Sarlo Valls, coordenadora de Medicina e Segurança do Trabalho. "Quando o funcionário atinge um grau de endividamento grave, ele pode cair num processo depressivo e, se trabalha numa agência, pode até perder dinheiro porque não está concentrado."

Nos casos mais críticos, o banco se reúne com o funcionário e seus familiares, faz um relatório com todas as dívidas e a partir disso elabora um plano de reestruturação. Recomenda o pagamento de todos os empréstimos na praça e faz com que ele concentre o seu endividamento apenas com o banco, para quitação em até 80 meses, a juros subsidiados, desde que não comprometa mais de 30% da renda. Nas palestras mensais, abertas a todos os funcionários, temas como planejamento financeiro, comportamento e até a produção da planilha orçamentária estão entre as abordagens recentes.

A gestão do orçamento doméstico não se distingue muito do comando de uma pequena empresa e não há milagres a não ser gastar menos do que se obtém de receitas mensalmente, pontua o consultor Masakazu Hoji, autor de livros como "Administração Financeira na Prática: Guia para a Educação Financeira Corporativa e Gestão Financeira Pessoal" e "Finanças da Família". "A organização hierárquica, as decisões de longo prazo como a compra de um imóvel, a forma de financiamento, tudo o que se faz em casa tem a estrutura de uma pequena empresa, guardadas as devidas proporções", diz. Para ele, o conceito de planejamento já está na cabeça das pessoas, mesmo daquelas que ganham salário mínimo e que compram fiado do açougueiro. "Às vezes, só falta colocar isso no papel, se você consegue economizar R$ 10 já é um avanço."
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